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Publicações - 4x4 & Pickup n° 29 de abril de 1986
GURGEL X12 - Um fora-de-estrada 4x2
(páginas: de 8 a 13)


Gurgel X12. é preciso mais?

O X12 é o veículo mais vendido da marca, chegando a representar 60 por cento dos veículos produzidos pela Gurgel.

4X4 & PICKUP foi averiguar o porquê dessa preferência e, durante nossas avaliações, tivemos a grata satisfação de descobrir os motivos desse sucesso. Veja por quê.

Texto: Caio Moraes
Fotos: Celso Moraes


Gurgel X 12
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A aparência não mudou muito, mas o visual continua simpático e agressivo, da mesma forma que a confiabilidade é outro dos seus pontos de destaque. Estamos falando do Gurgel X 12 Lona, o primeiro veículo off road de concepção totalmente nacional.

De 85 para 86, não houve alterações estéticas substanciais no X 12, sendo que as principais modificações foram feitas na mudança da linha 84 para 85. Nessa época, o X 12 ganhou uma nova grade dianteira, novos bancos, volante e lanternas. Para 86, foram introduzidas somente faixas decorativas.

Gurgel X 12
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Quando não existia estrada, o jeito era ir por onde dava.
Até o leito de pequenos riachos serviu como caminho.

Os opcionais também são poucos, já que a fábrica considera o seu veículo bastante completo e eficiente. De fato, o X 12 tem até lavador de pára-brisas com acionamento elétrico, o que não chega a acontecer com certos veículos básicos de montadoras multinacionais. Como opcionais de fábrica só se pode conseguir o camburão de combustível e o guincho manual, que tem 25 metros de cabo de aço.

Internamente o X 12 vem equipado com bancos com forração em tecido, o que nem sempre é desejável em situações de extrema dificuldade, onde é preciso descer e subir várias vezes no veículo. Com a estrada enlameada, num instante eles estarão irreconhecíveis. Eles são confortáveis e a única ressalva que poderia ser feita é quanto a altura do assento, que mereceria alguns centímetros a mais de espuma para melhorar o posicionamento do motorista.

Gurgel X 12
Atravessar riachos e se embrenhar pelo mato
foi uma constante

O espaço do habitáculo na parte dianteira é excelente, mas já não se pode dizer o mesmo quanto ao espaço para as pernas dos ocupantes do banco traseiro. Com o banco dianteiro regulado para uma pessoa com 1,75 m de altura, não restam boas condições de transporte para o passageiro que está atrás.

O posicionamento do motorista é bom, com a alavanca de câmbio, volante e instrumentos bem localizados. A pedaleira fica um pouco deslocada para a direita, mas isso só vai incomodar pessoas que tenham maior estatura. O acesso ao interior poderia ser melhorado se as portas tivessem maior ângulo de abertura. Esse ângulo é determinado por intermédio de uma cinta limitadora que, se tivesse dois ou três centímetros a mais de comprimento, facilitaria muito a entrada dos passageiros.

Gurgel X 12
O X 12 vai muito bem em quase todas as situações.
Da areia fofa e dos desníveis formados pelo vento,
ele não tomou nenhum conhecimento.

Um detalhe surpreendente no X 12 é o espaçoso porta-malas, item que, quando não inexistente, é muito precário em veículos off road. Além do espaço, convém ressaltar a sua impermeabilidade. Depois de tomar chuvas fortíssimas e entrar em riachos até que a água subisse momentaneamente por cima do capô dianteiro, a nossa bagagem continuava inteiramente seca. Aliás, a impermeabilidade também é uma virtude do habitáculo dos passageiros. Não houve chuva ou situação normal que alagasse o seu interior. Para ser exato, apenas quando abusávamos muito da profundidade dos alagadiços ou dos riachos entrava um pouquinho de água no lado do motorista. Ao que tudo indica, por algum orifício na altura da pedaleira.

A capota não é muito simples de ser retirada ou colocada, precisando, inclusive, de uma chave do tipo phillips para a manobra. A visibilidade para os lados e para trás não é das melhores, mais isso é perfeitamente aceitável num veículo que tenha esse tipo de capota.

Resumindo, o Gurgel X 12 reúne qualidades acima da média numa análise estática geral.


No fora-de-estrada,
a confirmação esperada

A idéia inicial previa o levantamento de um roteiro - para uma futura matéria -, onde teríamos que, necessariamente, trafegar um bom trecho por estradas asfaltadas, estradas de terra de boa qualidade, trilhas e lugares onde o caminho seria descoberto pelo próprio X 12. No roteiro também teríamos trajetos nas areias das praias, riachos e serras muito íngremes e lamacentas. Enfim, um prato cheio para quem tem como objetivo a avaliação de um veículo off road.

Escuro ainda, e já estávamos na estrada. O asfalto era de excelente qualidade e a dirigibilidade do X 12 ótima. A velocidade/cruzeiro andava em torno dos 100 km/h e, ainda que se consiga andar um pouco mais rápido, não era esse o nosso intuito. Como veículo essencialmente off road, o X 12 não tem um grande desempenho ou uma grande velocidade final, em função da relação do diferencial ser mais reduzida do que a do Fusca - do qual ele usa as mesmas relações de câmbio - e de não ter linhas aerodinâmicas mais apuradas. Qualidades perfeitamente dispensáveis para um off road.

O importante é que ele tem um rodar seguro, sem apresentar oscilações laterais nas velocidades mais altas, deixando para mostrar toda a sua potencialidade nas condições para as quais ele foi concebido: as de fora-de-estrada.

A estabilidade é boa mas por causa da sua altura e dos pneus próprios para o fora-de-estrada não deve ser muito exigida, principalmente nas curvas de baixa velocidade, quando as rodas traseiras tendem a adotar uma convergência muito acentuada na sua parte inferior. Os freios - a disco na frente e a tambor atrás - são bons, mas poderiam ser um pouco mais eficientes, para transmitir maior tranquilidade ao motorista.

Nas estradas de terra, os ruídos apresentados pela carroceria e fixações da capota de lona eram excessivamente altos. Mas havíamos sido alertados pelo fabricante sobre esse inconveniente pois esse carro, especificamente, vinha sendo usado regularmente como veículo de serviços da empresa, e não havia passado por uma revisão que visasse a redução dos ruídos.

Gurgel X 12
A estrada foi estreitando, estreitando, até chegar um ponto onde o Gurgel teve que abrir seu próprio caminho
O piso foi ficando cada vez mais difícil, apareceram os riachos e mesmo assim prosseguíamos com tranquilidade. Por fim nosso caminho nos levou a uma íngreme e estreita subida, que como agravante era extremamente escorregadia por causa das recentes chuvas que caíram na região. Subir foi relativamente fácil mas, ao atingirmos o seu topo, descobrimos que não havia como continuar. Sem espaço para manobras, o jeito foi voltar de ré. Tomando muito cuidado iniciamos a descida, mas o chão enlameado e a excessiva inclinação da trilha faziam com que escorregássemos mais do que seria conveniente, e foi numa dessas escorregadelas que quase rolamos barranco abaixo. A roda traseira esquerda ficou suspensa no ar, e o X 12 só parou porque o chassi encostou no chão. Para nossa sorte, ele estava equipado com guincho manual, e a primeira providência foi estender o cabo até a árvore mais próxima.

A seguir começamos a "operação salvamento". Quando o cabo ficou totalmente esticado e começou a içar o veículo vagarosamente, sentimos grande dificuldade para movimentar a alavanca que, por ser um pouco curta, tornou-se muito pesada.

Outra coisa que nos chamou a atenção foi o pára-choque. Durante o trabalho de resgate, ele apresentou uma torção pouco tranquilizante, e a sensação que tivemos foi a de que o guincho poderia se soltar se continuasse a ser forçado daquela maneira. Então resolvemos entrar no jipe e usar uma combinação de motor e guincho para desencalhá-lo, além de duas outras pessoas continuarem a empurrá-lo. Finalmente ele voltou à trilha, mas o susto foi grande.

Quando mais nos acostumávamos com o X 12 e, por consequência, ficávamos mais confiantes, mais exigíamos dele, que não se fazia de rogado e aceitava tudo sem reclamar. O motor não é dos mais potentes e, quando o terreno se torna mais "pesado" - como nos areiões e lamaçais profundos -, é preciso uma certa agilidade para adequar marchas mais reduzidas a estas novas necessidades, pois ele cai de giro rapidamente. Mas assim que se aprende a conviver com essas características, o X 12 é incrivelmente valente e eficiente.

Gurgel X 12
Um detalhe que nos chamou a atenção foi a
sua capacidade de vencer subidas íngrimes.
Derrapava, escorregava, resfolegava,
mas nunca deixava de atingir o objetivo.

Por sua leveza e capacidade de tração, ele tem muita facilidade em transpor lamaçais, no que é ajudado pelo selectraction - um sistema de freio manual, que atua independentemente nas rodas traseiras -, fazendo com que se possa ter tração apenas numa ou noutra roda. Subidas longas, escorregadias e íngremes, são prato predileto para o Gurgel X 12. Ele derrapa para a direita e esquerda, mas nunca deixa de seguir em frente, numa atitude surpreendente para um veículo de tração em somente duas rodas.

Nesse veículo, especificamente notamos um problema a ser considerado. Sempre que andávamos por terrenos "duros", "costelas de vaca", ou com ondulações muito frequentes, as portas se abriam, demonstrando uma indesejával torção de carroceria ou mau ajuste das portas. Como isso aconteceu pela primeira vez em nossas avaliações com veículos Gurgel, preferimos, desta vez, creditar essa deficiência ao fato - que já citamos anteriormente - de ele ser um veículo que não estava com as partes móveis da carroceria devidamente ajustadas.

Quanto ao consumo de gasolina, numa média entre estradas de terra e terrenos mais difíceis, conseguimos a marca de 7 quilômetros/litro, dado que melhorou sensivelmente quando passamos a rodar em boas estradas de terra e também no asfalto. Nessa segunda condição chegamos a rodar até 8,9 quilômetros com um litro de gasolina. Não são marcas muito expressivas numa primeira análise, mas não se pode esquecer que ele é um veículo de limitados dotes aerodinâmicos, que as suas relações de marchas são bastante reduzidas e que rodamos constantemente com quatro pessoas mais bagagens a bordo.


Conclusão

O Gurgel X 12 é um veículo utilitário muito valente, que chega até a surpreender em determinadas ocasiões. Essa valentia é complementada pela agilidade, leveza, resistência e uma excelente capacidade de tração, levando-se em conta que ele é um veículo 4X2. Durante nossas avaliações, encontramos todos os tipos de situação e, mesmo na água, lama, buracos e acentuados desníveis, ele sempre se mostrou confiável e eficiente.

Gurgel X 12
Suas linhas são rústicas e proliferam "cantos vivos"
por toda a carroçaria.
Mas, no cômputo geral, é um projeto que agrada
por sua robustes e agressividade.

Como a maioria dos veículos, ele tem prós e contras mas, com certeza, os pontos a favor do X 12 são os de maior número, o que faz com que os pontos contra sejam relegados a um segundo plano.

Ai pensamos cá com nossos botões: Se ele é tão satisfatório com tração simples, do que não seria capaz com tração integral?!


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